Ele começou dizendo que nada fazia o menor sentido. Nada disso fazia o menor sentido. “Mas o quê não faz sentido?”, eu perguntei sem obter resposta alguma. Ele ficou lá, num vai e vem incessante do corpo, como se estivesse prestes a desmoronar a qualquer momento. Fiquei preocupado. Ele sempre fora um rapaz estranho, mas hoje estava mais exaltado do que sempre. Me sentei. Ele me imitou. Disse que queria se mudar de cidade. Se possível, queria mudar até mesmo de estado. Eu não disse nada, só esperei ele continuar. Levou a mão direita à boca, começou a roer as unhas, num gesto claro de impaciência, querendo que eu perguntasse o que diabos havia acontecido. Perguntei. Ele não respondeu de imediato. Acendi um cigarro. Fui até a janela. Esperei. “Olha”, ele começou, meio nervoso, meio inseguro, meio insensato, “olha, nada faz o menor sentido”. Ele repetiu. Continuei olhando pra janela. O céu naquele tom meio rosa-alaranjado, as nuvens num tom arroxeado, o sol se encontrando com algum rio, mar, oceano, querendo dar espaço pra lua, indo esquentar outro lugar. Japão, quem sabe. Gostaria de ir para o Japão. Mas ao mesmo tempo tinha pavor de gente demais. Mas era a China que era cheia de gente, né? Ou os dois? “Você está me ouvindo?”, ele parou de roer as unhas, estava agora rabiscando uma folha em branco. “Estou. Só não entendi o que não faz o menor sentido”. Ele rabiscou a folha com mais força, como se estivesse descontando nela a minha falta de percepção dos problemas dele. “É claro que você não entende. Pra você tudo faz sentido”. Respirou. Fiquei em silêncio. Ficamos em silêncio. Respirou fundo. “Cara, eu não agüento mais essa vida medíocre. Eu trabalho, trabalho, trabalho, ganho um salário de merda, a troco de quê?” Deixou a folha de lado. Levantou, andando de um lado pro outro. “Nada faz o menor sentido, essa vida, essa existência vazia, essa vontade de, a qualquer hora, me jogar na frente de um ônibus pra saber como é o outro lado – se é que existe outro lado.” O trânsito do lado de fora estava caótico. O mundo parecia mais caótico hoje do que ontem. Como seria amanhã? “Acho que você anda lendo essas frescuras filosóficas demais…” Dei um último trago no cigarro, jogando a bituca pela janela, acompanhando sua trajetória do sexto andar até o chão. Não que eu conseguisse distingui-la depois de passar pelo terceiro andar. Suspirei. Num certo ponto eu até concordava com as asneiras que ele dizia, mas preferia não pensar nisso. Pensar demais corrói a vida da gente. Está corroendo a dele, agora. “E, outra coisa: mudar de cidade vai mudar o que?” Ele fechou os olhos, estralou os dedos, levantou. “Talvez novos ares me deixem mais tranqüilo, não sei…” Que planeta estaria se encontrando com qual hoje? Mudar de cidade poderia não ser uma ideia tão ruim assim, se eu considerasse o ponto novamente. Olhei para o céu de novo. O rosa-alaranjado não estava mais lá e as luzes da cidade começavam a se acender. Eu era tão genuinamente urbano. “Que tal algo menos drástico? Só uma viagem, alguma coisa do tipo”. Ele pareceu considerar a proposta. Na verdade, parecia estar orando pra alguma entidade divina, em busca de forças ou paciência ou algo mais além da minha compreensão de ser mundano e sem fé. Balancei a cabeça. Que tal se. Pensei em anunciar o que queria fazer, mas desisti do ato. Ele me olhou intrigado. “Nossas vidas são tão vazias”, ele disse. E eu concordei. Agora ele estava incluindo minha vida no pacote. Não que sua sentença estivesse incorreta. Na verdade, era correta demais. Senti vontade de chorar. Nunca choro. Chorar me deixa vulnerável e eu nunca quis parecer vulnerável, nem pra mim, nem pra ele, nem pra ninguém. “São tão sem sentido, você não concorda? A gente acorda, vai trabalhar, volta pra casa, às vezes vê um filme, às vezes vai pra um barzinho com os supostos amigos… De amigo mesmo só tenho você. E ainda sim nossa amizade é um bicho estranho”. Me olhou. Suspirei. Ele dizia verdades muito cruas, sem dó nem piedade. Talvez fosse culpa dessa vida… Vazia, como ele mesmo colocou. Sem gentilezas, mas também sem o intuito de ofender ele me dizia tudo o que vinha a mente. Segurei de novo a vontade de chorar. Daqui a pouco, quem iria dizer que nada fazia sentido era eu. Quis desesperadamente abraçá-lo, mas pensei tanto nisso que acabei desistindo. Ele, no entanto, se aproximou, chegou bem perto. Me encolhi sem perceber. “Que tal se a gente fosse embora?” Parei. Pensei. Suspirei. Respirei. Meneei. E acabei concordando. Mas embora pra onde? Como? Com que dinheiro? Eu ia perguntar, quando percebi que isso não faria diferença alguma pra ele e que a resposta seria um “a gente dá um jeito”. Fiquei quieto, só concordando. Quem sabe. Quem sabe a gente conseguisse, no fim das contas. Quem sabe o vazio ficasse cheio de tudo. Quem sabe desse pra alcançar alguma espécie de completude em algum lugar desconhecido. Quem sabe ele soubesse… Porque talvez, só talvez, eu acho que sempre soube.