menos pela cicatriz deixada

Postado em Uncategorized com as tags , , , , em 30/08/2011 por Alining Stone

Um metro e setenta. Vinte e cinco anos. Uma vontade incrível de voltar no tempo. Voltar praquele dia de inverno que mais parecia verão, onde seus dezoito anos haviam finalmente chegado. O mês de julho não era o seu preferido, mas gostava que seu aniversário coincidisse com o primeiro dia de inverno. Não que achasse que essa estação fosse melhor que as outras (para ele isso não fazia muita diferença), mas era como se o seu nascimento fosse um evento maravilhoso.

Fechou os olhos, respirou fundo, puxou as cobertas até que as pernas não ficassem à mostra. Completamente fechado. E por vontade própria. Acendeu mais um cigarro, esquecendo que, ainda pouco depositara um filtro quase inteiro no cinzeiro. Tragou fundo, sentindo a nicotina e o alívio penetrarem em seu interior. Curtiu a sensação por um momento. Depois, soltou a fumaça e as frustrações.

Queria desesperadamente fugir, desaparecer, não mandar notícias. Queria escrever um diário que poderia virar livro e quem sabe até um filme. Sorriu discreto, segurando o cigarro entre o indicador e o médio, passando o polegar pela bochecha. Um filme. Queria tantas coisas… Já quis ser bombeiro, jogador de futebol, pai, médico… E o que conseguiu? Nada que valesse a pena sonhar.

Molhou o dedo indicador da mão contrária àquela que segurava o cigarro, juntando as cinzas que caíram em cima da camiseta preta que não saía do corpo há dias. Alcançou um papel que estava sendo segurado por uma caneta e sentiu um desespero conhecido o atingir. Já lera tantas vezes aquela carta que decorara o primeiro parágrafo.

Você já deve estar cansado das minhas cartas. Prometo que essa é a última. Quantas vezes você já pensou que sua vida não valia nada? Penso isso sempre, principalmente quando sinto seu olhar de indiferença sobre mim.

Parou aí. Não conseguia mais. A carta, palavra por palavra, era como um soco bem no meio da cara. Colocou a ponta da carta na ponta acesa do cigarro. Sentiu o cheiro de papel queimado. Desistiu. Levantou da cama, indo até a janela e abrindo-a, após dias de ‘enclausuramento’ voluntário. O sol brilhava, queimava a cara, dilacerava a alma. Sentiu vontade de chorar. E chorou. Encostou a cabeça na janela, abraçou o próprio corpo e chorou como uma criança. Mesmo depois de tanto tempo ele ainda podia chorar, ele ainda tinha forças pra chorar.

Apertou ainda mais o abraço em volta de si mesmo e, entre soluços, sussurrou pro vento:

“Que eu possa voltar a ser doce. Que eu possa, que possamos…”

e procuro, te procuro

Postado em Uncategorized com as tags , , , , em 29/08/2011 por Alining Stone

Ele começou dizendo que nada fazia o menor sentido. Nada disso fazia o menor sentido. “Mas o quê não faz sentido?”, eu perguntei sem obter resposta alguma. Ele ficou lá, num vai e vem incessante do corpo, como se estivesse prestes a desmoronar a qualquer momento. Fiquei preocupado. Ele sempre fora um rapaz estranho, mas hoje estava mais exaltado do que sempre. Me sentei. Ele me imitou. Disse que queria se mudar de cidade. Se possível, queria mudar até mesmo de estado. Eu não disse nada, só esperei ele continuar. Levou a mão direita à boca, começou a roer as unhas, num gesto claro de impaciência, querendo que eu perguntasse o que diabos havia acontecido. Perguntei. Ele não respondeu de imediato. Acendi um cigarro. Fui até a janela. Esperei. “Olha”, ele começou, meio nervoso, meio inseguro, meio insensato, “olha, nada faz o menor sentido”. Ele repetiu. Continuei olhando pra janela. O céu naquele tom meio rosa-alaranjado, as nuvens num tom arroxeado, o sol se encontrando com algum rio, mar, oceano, querendo dar espaço pra lua, indo esquentar outro lugar. Japão, quem sabe. Gostaria de ir para o Japão. Mas ao mesmo tempo tinha pavor de gente demais. Mas era a China que era cheia de gente, né? Ou os dois? “Você está me ouvindo?”, ele parou de roer as unhas, estava agora rabiscando uma folha em branco. “Estou. Só não entendi o que não faz o menor sentido”. Ele rabiscou a folha com mais força, como se estivesse descontando nela a minha falta de percepção dos problemas dele. “É claro que você não entende. Pra você tudo faz sentido”. Respirou. Fiquei em silêncio. Ficamos em silêncio. Respirou fundo. “Cara, eu não agüento mais essa vida medíocre. Eu trabalho, trabalho, trabalho, ganho um salário de merda, a troco de quê?” Deixou a folha de lado. Levantou, andando de um lado pro outro. “Nada faz o menor sentido, essa vida, essa existência vazia, essa vontade de, a qualquer hora, me jogar na frente de um ônibus pra saber como é o outro lado – se é que existe outro lado.” O trânsito do lado de fora estava caótico. O mundo parecia mais caótico hoje do que ontem. Como seria amanhã? “Acho que você anda lendo essas frescuras filosóficas demais…” Dei um último trago no cigarro, jogando a bituca pela janela, acompanhando sua trajetória do sexto andar até o chão. Não que eu conseguisse distingui-la depois de passar pelo terceiro andar. Suspirei. Num certo ponto eu até concordava com as asneiras que ele dizia, mas preferia não pensar nisso. Pensar demais corrói a vida da gente. Está corroendo a dele, agora. “E, outra coisa: mudar de cidade vai mudar o que?” Ele fechou os olhos, estralou os dedos, levantou. “Talvez novos ares me deixem mais tranqüilo, não sei…” Que planeta estaria se encontrando com qual hoje? Mudar de cidade poderia não ser uma ideia tão ruim assim, se eu considerasse o ponto novamente. Olhei para o céu de novo. O rosa-alaranjado não estava mais lá e as luzes da cidade começavam a se acender. Eu era tão genuinamente urbano. “Que tal algo menos drástico? Só uma viagem, alguma coisa do tipo”. Ele pareceu considerar a proposta. Na verdade, parecia estar orando pra alguma entidade divina, em busca de forças ou paciência ou algo mais além da minha compreensão de ser mundano e sem fé. Balancei a cabeça. Que tal se. Pensei em anunciar o que queria fazer, mas desisti do ato. Ele me olhou intrigado. “Nossas vidas são tão vazias”, ele disse. E eu concordei. Agora ele estava incluindo minha vida no pacote. Não que sua sentença estivesse incorreta. Na verdade, era correta demais. Senti vontade de chorar. Nunca choro. Chorar me deixa vulnerável e eu nunca quis parecer vulnerável, nem pra mim, nem pra ele, nem pra ninguém. “São tão sem sentido, você não concorda? A gente acorda, vai trabalhar, volta pra casa, às vezes vê um filme, às vezes vai pra um barzinho com os supostos amigos… De amigo mesmo só tenho você. E ainda sim nossa amizade é um bicho estranho”. Me olhou. Suspirei. Ele dizia verdades muito cruas, sem dó nem piedade. Talvez fosse culpa dessa vida… Vazia, como ele mesmo colocou. Sem gentilezas, mas também sem o intuito de ofender ele me dizia tudo o que vinha a mente. Segurei de novo a vontade de chorar. Daqui a pouco, quem iria dizer que nada fazia sentido era eu. Quis desesperadamente abraçá-lo, mas pensei tanto nisso que acabei desistindo. Ele, no entanto, se aproximou, chegou bem perto. Me encolhi sem perceber. “Que tal se a gente fosse embora?” Parei. Pensei. Suspirei. Respirei. Meneei. E acabei concordando. Mas embora pra onde? Como? Com que dinheiro? Eu ia perguntar, quando percebi que isso não faria diferença alguma pra ele e que a resposta seria um “a gente dá um jeito”. Fiquei quieto, só concordando. Quem sabe. Quem sabe a gente conseguisse, no fim das contas. Quem sabe o vazio ficasse cheio de tudo. Quem sabe desse pra alcançar alguma espécie de completude em algum lugar desconhecido. Quem sabe ele soubesse… Porque talvez, só talvez, eu acho que sempre soube.

água com açúcar

Postado em Uncategorized com as tags , , , em 17/08/2011 por Alining Stone

vem que eu te quero, vem que eu te espero, vem que eu passei a vida toda esperando por você. vem que nada nesse mundo vai me fazer desistir de você outra vez. mas vem sem medo, vem sem receio. vem com a cara com a coragem com a vontade com esse seu jeito curioso e malandro que descobre tudo o que quer, que consegue tudo o que quer. vem sem preconceitos sem mágoas me descobre, me vira do avesso, me faz nova, me faz diferente. vem que o mundo é nosso porque eu sei que você quer vir, quer chegar, quer ficar, quer receber amor, quer dar amor, quer ser uma pessoa melhor e me fazer uma pessoa melhor. vem que a vida é assim mesmo, que apesar dos desencontros nós nos encontramos e estamos aqui agora no hoje vivendo mas pensando no amanhã. vem que eu nunca me senti assim antes, nunca quis tanto alguém assim antes nem nunca me entreguei dessa maneira. vem porque eu te preciso, porque eu não sei mais o que é ficar sem você, porque estamos interligados. vem porque você me fez vir também. vem porque você quer vir. vem porque ainda tem muita vida e muita coisa pra ser descoberta, vivida, intensificada, amada, dilacerada, repartida, compartilhada, observada, jogada. vem que eu me fiz pra você. vem porque eu te escolhi. vem porque você me escolheu. só vem.

grita que você me quer, que eu vou gritar também.

mundos sem forma passam por mim

Postado em Uncategorized com as tags , , , , em 15/08/2011 por Alining Stone

“Hoje as coisas parecem diferentes. Você sabe, é como aquelas experiências onde você sai do corpo e vê tudo de cima, como se você não fosse você, mas é você se vendo de outro ângulo, outra perspectiva, não sabendo se vai gostar daquilo que vê. É certo que fiquei impressionado. Quando os amigos disseram que eu estava definhando eu achei que era exagero. Qual é, todo mundo passa por uma grande depressão as vezes. Aquele era o meu momento e eu estava curtindo do meu jeito triste. Não pensei em me matar. Mas talvez estivesse me matando aos poucos, por não ter essa incrível vontade de viver que vocês têm. Me desculpem, me desculpem. Sei que me afastei de todos, de tudo que me fazia feliz e foi tão de repente. Mas é difícil explicar pra vocês o que se passou na minha cabeça no momento em que eu decidi largar tudo e vir morar num lugar onde eu não conhecia ninguém, em uma cidade onde nada parece dar certo. Eu sei que está sendo pior pra vocês do que pra mim. Mas agora, agora que eu saí do corpo, consegui enxergar como tem sido insuportável lidar comigo, além de preocupante. Achei que estava tudo certo, tudo sobre controle, que eu poderia assumir as rédeas da minha vida no momento em que eu decidisse isso, mas não foi bem assim. E pra ser sincero nem ao menos sei como foi que consegui ter essa experiência além do corpo. Pode ter sido uma quase-morte, quem sabe… Mas isso me abriu os olhos. A gente vai vivendo uma vida toda de um jeito e de repente quer mudar, mas não mede as consequências. Não é fácil tentar ser alguém que você nunca foi. Não é fácil se desprender dos vícios, das manias, dos amores, das vontades de quem você realmente é.  Só pensei realmente que poderia ser como aqueles poetas que ficavam reclusos, abstraindo da pura solidão e viviam uma vida tragicamente bonita. Ou bonitamente trágica, quem sabe. Ah, é tão complicado de dizer o que se passa aqui. Fiquei assustado quando os antigos amigos vieram me ver porque não falava com eles há algum tempo. Bom, talvez tenha sido por isso que eles vieram me ver. Conheci uma moça aqui nessa cidade. Diferente de tudo que já vi. Não, não, eu não me apaixonei e nós não tivemos uma história digna de cinema. Ela se apaixonou sim. Talvez porque eu fosse o forasteiro misterioso e ela estivesse cansada dessa mesmice. Ela era feliz, feliz demais. Deveria ser contagiante, mas não me contagiou. E  ela viu que eu não tinha felicidade nenhuma pra ela. Acho que vim pra essa cidade sem meu espírito. E então ela foi embora. Embora. Fiquei mais triste ainda. Não que eu estivesse apaixonado, mãe, mas a alegria dela era a única coisa bonita pra essa cidade. Acho que foi aí que abandonei a vida, joguei tudo pro lado. Mas agora, agora estou escrevendo porque saí do corpo e vi como tudo estava. Estou escrevendo pra tranquilizar a senhora, tranquilizar o pai. Vou melhorando aos poucos. Decidi que quero viver. Estou pensando em ir atrás dessa moça, a Alegra. Mas isso é um plano pra quando eu puder oferecer alegria. Só espero que não seja tarde demais.

Um beijo, amo vocês”.

oito do oito, etc e tal

Postado em Uncategorized com as tags , , , , em 08/08/2011 por Alining Stone

Raciocinando melhor, não existe a pessoa certa. Veríssimo que disse isso, não é? Mas não sigo a lógica de pensamento dele. Quero dizer, não tem essa de pessoa certa ou a pessoa errada, o que existe é a pessoa que nósescolhemos pra amar. Acho que deu pra perceber que sou fanática pela teoria da escolha. Você escolhe estar com alguém, você escolhe gostar desse alguém, amar esse alguém, casar com esse alguém, etc e tal. Não é destino, não é predestinação… Alma gêmea não é aquele conto de atravessar mundos e corpos geração após geração pra estar com quem você ama. Não, não é. Alma gêmea é aquela pessoa com quem você compartilha segredos, planos, vontades, desejos, amor, ambição, prazer e todo o resto. Alma gêmea é aquela pessoa em quem você resolveu confiar. É o amor da sua vida porque você decidiu que seria o amor da sua vida, porque você fez com que se tornasse o amor da sua vida, porque você aprendeu a amar, com defeitos e qualidades, etc e tal.

nothing hurts

Postado em Uncategorized com as tags , em 08/08/2011 por Alining Stone

Eu te amo. Eu te amo. Eu te amo. Eu te amo. Eu te amo. Repito isso todos os dias e nem sei porque. Segurança? Segurança pra que, afinal de contas? Está tudo tão bonito, tão certo… Tão amor. Cada dia que passa te quero mais e mais e mais até que eu tenha uma overdose de você. E mesmo assim continuaria querendo mais. Acho que estamos aprendendo agora. Sabemos o que queremos e como conseguir. E parece que nada nos impede. Você se molda à mim e eu à você. Um equilíbrio sem igual.

quanto tempo demora um mês?

Postado em Uncategorized com as tags , em 06/08/2011 por Alining Stone

Então tem esse sentimento de cansaço. Essa vontade de desistir de todos, desistir de tudo, de dormir até o ano que vem, ser bem egoísta. Ando levando pedaços da minha vida de qualquer jeito, o clássico “empurrando com a barriga”. Trabalho, faculdade, coisas de casa… Não sei se é a falta de tempo ou alguma insatisfação comigo mesma ou as responsabilidades. Ando acordando no meio da madrugada, dormindo mal, transpirando a noite. Tudo me incomoda. Quero carinho, carinho, carinho até enjoar. Talvez eu precise de mais açúcar. A palavra açucarada não sai da minha cabeça.

Sabe do que preciso? Virar minha vida do avesso.

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